O homem gostava de sombras!
Ele explicava que o excesso de definição prejudica o entendimento.
Dava como exemplo a folha branca de papel que sob o sol intenso não serve, nem para guardar a sombra da tinta com que se escreve. Dizia que nas sombras se encontram os mundos que dão a ver o que de outra maneira nunca saberíamos.
Dizia que apagando as evidências se alcança a ausência aonde vagueiam as emoções,
onde se situa a possibilidade do que se anseia.
A bem dizer, é estranheza colocar a percepção emocional na emergência das sombras. É
como se a essência das coisas aí se encontrasse, o que de facto não acontece.
Mas o homem dizia que não era nada de isso. E dizia que falava, sim, da liberdade da
essência das coisas, na dimensão tautológica de um instante único, transitório e ndizível. É o discurso sonegado. O que não é dito dentro do que se diz. É o não explicado, que permite nos dissolver na ausência dos limites.
De acordo, mas não me parece muito pensável o apagamento na indefinição e no amorfismo.
O homem dizia então: o pensamento lógico é claro e incisivo.
Impossibilita o devaneio.
Não é disso que falo. Falo das sombras que pela calada da ausência se aproximam, apagam as diferenças, se integram na imensidão de todos os mistérios, na celebração de todos os rituais, na vastidão do impossível. Aí se inscreve a verdade emocional, quer nos azuis gélidos que se aquecem nos ocres, nos verdes friorentos que vão para índigos subtis; quer nas púrpuras de luxúria que se tingem de carmins de tragédia. Imperceptíveis variações, transições suaves e nunca declaradas, mundos mergulhados
na serenidade de situações ambíguas que tudo permitem e nos libertam na imensidão, lá
onde se gera e se aninha a poética. É só deixar que as ambiguidades se afirmem, se
apaguem os referentes, se percorra o indefinido. A libertação situa-se aqui, dizia o homem, no movente discurso das sombras estendidas como lugares de encenação mágica.
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